No final dos anos 80 e inícios dos anos 90, a música não circulava por todo o lado, muito menos por Leiria. Não havia internet, não víamos a MTV. Os concertos eram escassos e o mainstream musical tomava conta de quase tudo. Passavam-se cassetes gravadas de mão em mão, limpavam-se agulhas e vinis. Os nomes das bandas mais interessantes eram passadas de boca-em-boca, não sabíamos como eram as suas caras ou as suas idades. Vi uma foto dos Pixies apenas 2 anos depois de ouvi-los.
No meio de tudo isto, existia o António e o seu "Som da Frente". Um canal directo para um outro mundo longe do nosso, um sítio onde a música falava sempre mais alto do que tudo o resto. Acertávamos os dias (e as noites) para estar com ele na sua viagem de descobertas, partilhando o deslumbre pela novidade, pelo risco, pelos sons nunca antes ouvidos, universos longínquos e fabulosos. À mesma hora, no mesmo sítio, um clube secreto conhecido por todos.
Anos mais tarde, tive a honra de ser convidado a estar no seu programa na Rádio Comercial. Eu e o Ricardo Fiel tocámos dois temas ao vivo ao lado do Mestre, um momento absolutamente único para quem partilhou tantas noites com a sua música. Saímos dos estúdios com uma excitação adolescente, tínhamos conhecido o homem cuja voz nos tinha guiado por tantas vezes para fora da nossa realidade musical.
Homenagens póstumas, não é hábito meu. De todo. Defendo que importa reconhecer o "valor" de cada um em vida. Existem no entanto, aqueles que deixam marcas no nosso crescimento, que fizeram de nós melhores pessoas. António Sérgio foi uma dessas pessoas que ajudou a que eu me tornasse quem sou. Contribuí sem dúvida para a formação de quem sou e de quem admiro em termos musucais. Ao som da sua voz inconfundivél viagei por sons e imagens criadas na minha mente. Ao som dos vinis conheci e descobri novos sons. O "Som da Frente" (e vou plagiar-te) era exactamente, um clube secreto conhecido por todos.
António Sergio até sempre. Quanto a ti David, obrigada-
O Barreiro, nesse aspecto, não era muito diferente de Leiria. O rio pode ser uma enorme barreira...que o rádio ía ajudando a superar. E ainda hoje era a minha companhia...na Radar.
Lamento a minha ignorância mas não conhecia este senhor. No entanto foi-me deveras prazeroso conhecê-lo à luz do teu olhar, do teu sentir, das tuas palavras.
A morte tem o amargo condão de revelar o que há de mais importante numa vida. E o amor imortaliza. Tenho a certeza que ele está muito melhor do que nós (não que queira lá estar - atenção - porque eu ainda sou masoquista e prevejo sê-lo largamente, a não ser que o Planeta Vermelho mande isto tudo pó galheiro, ou algum outro imprevisto).
António Sérgio, que a tua alma não só descanse em paz, como possa fazer altas parties, dormir até tarde e desbundar a maciez de todas as nuvens. Tirar férias noutras galáxias sem pagar taxa. Obrigada pelo que deixaste a quem te ama.
Mais uma vez soubeste dizer tudo muito bem. Obrigada David. O Mestre ficaria orgulhoso por se saber tão apreciado. Sou parte dos seus ouvintes do Som da Frente e da Hora do Lobo, parte privada do seu trabalho por ele não ter lugar numa rádio nacional. Ficará para sempre uma saudade e uma ausência nunca mais preenchida. RIP lobinho bom